A microbiota do intestino interfere em vários aspectos da saúde, da imunidade à qualidade do sono. Um estudo publicado em 27/3 mostrou que melhorar a diversidade da flora intestinal pode reduzir os sintomas de pessoas com Parkinson usando uma técnica inusitada: o transplante de fezes.
Publicado na revista científica The Lancet, o estudo feito por pesquisadores belgas apontou que o transplante de fezes foi capaz de reduzir os distúrbios do movimento característicos da condição (tremores) em longa duração — os resultados foram observados por mais de 12 meses após o procedimento.
Como foi feito o estudo
O estudo clínico duplo-cego foi feito comparando pacientes com doença de Parkinson em estágio inicial. Eles foram divididos em dois grupos: o primeiro, com 22 pessoas, recebeu fezes de doadores saudáveis, enquanto o grupo de controle recebeu as próprias fezes.
“Nossos resultados são realmente encorajadores, todos os pacientes que receberam fezes de doadores saudáveis tiveram melhoras significativas”, comemorou o pesquisador e líder do estudo Arnout Bruggeman, do VIB-UGent-UZ Gent, em comunicado à imprensa.
Todos os voluntários receberam as fezes através de um tubo que foi inserido pelo nariz e avançou até o intestino delgado para depositar a mistura. A melhora nos sintomas demorou a aparecer: ela só foi observada nas consultas após seis meses, com crescimento após um ano, o que sugere um efeito duradouro do impacto da mudança na microbiota intestinal.
Os pesquisadores acreditam que a melhora dos sintomas pode estar relacionada a alterações no movimento intestinal e na sua relação com a produção de hormônios e regulação do funcionamento do cérebro, mas são necessárias mais pesquisas para definir a explicação.

3 Cards_Galeria_de_Fotos (2)
Parkinson é uma doença neurológica caracterizada pela degeneração progressiva dos neurônios responsáveis pela produção de dopamina
KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRARY/ Getty Images

*****Foto-mao-tremendo.jpg
Esse processo degenerativo das células nervosas pode afetar diferentes partes do cérebro e, como consequência, gerar sintomas como tremores involuntários, perda da coordenação motora e rigidez muscular
Elizabeth Fernandez/ Getty Images

*****Foto-enfermeira-ajudando-mulher-a-levantar-de-poltrona.jpg
Outros sintomas da doença são lentidão, contração muscular, movimentos involuntários e instabilidade da postura
izusek/ Getty Images

*****Foto-idoso-sentado-comendo.jpg
Em casos avançados, a doença também impede a produção de acetilcolina, neurotransmissor que regula a memória, aprendizado e o sono
SimpleImages/ Getty Images

*****Foto-mulher-ruiva-sentada-em-uma-cadeira-de-rodas.jpg
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apesar de a doença ser conhecida por acometer pessoas idosas, cerca de 10% a 15% dos pacientes diagnosticados têm menos de 50 anos
Ilya Ginzburg / EyeEm/ Getty Images

*****Foto-maos-sobre-as-outras.jpg
Não se sabe ao certo o que causa o Parkinson, mas, quando ocorre em jovens, é comum que tenha relação genética. Neste caso, os sintomas progridem mais lentamente, e há uma maior preservação cognitiva e de expectativa de vida
Visoot Uthairam/ Getty Images

*****Foto-pessoa-fazendo-tomografia.jpg
O diagnóstico é médico e exige uma série de exames, tais como: tomografia cerebral e ressonância magnética. Para pacientes sem sintomas, recomenda-se a realização de tomografia computadorizada para verificar a quantidade de dopamina no cérebro
JohnnyGreig/ Getty Images

*****Foto-pessoas-olhando-o-raio-x-de-um-cranio.jpg
O Parkinson não tem cura, mas o tratamento pode diminuir a progressão dos sintomas e ajudar na qualidade de vida. Além de remédio, é necessário o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. Em alguns casos, há possibilidade de cirurgia no cérebro
Andriy Onufriyenko/ Getty Images
0
Preconceito com o transplante de fezes
Este é o primeiro estudo duplo-cego feito para entender a relação entre a saúde intestinal e o Parkinson através do transplante de fezes. Como há resistência quanto ao procedimento, os pesquisadores destacaram que foi difícil encontrar financiamento, mas as doações dos pacientes permitiram a realização da pesquisa.
“Nosso próximo passo é conseguir financiamento para tentar determinar quais bactérias têm uma influência positiva. Isso poderia levar ao desenvolvimento de uma ‘pílula bacteriana’ ou outra terapia direcionada que poderia substituir o transplante no futuro”, afirma a professora Roosmarijn Vandenbroucke, participante da equipe.
Siga a editoria de Saúde no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto!